quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A tal da felicidade virtual


FOTO:IVETTEIVENS.COM

Antes mesmo do amanhecer, quando o sol ainda nem apareceu no horizonte Nicole já se conectava ao seu celular, ritual diário. E isso significava a todas as redes sociais possíveis.
Vício atual.

O bebê parou de resmungar para encher o pulmãozinho e lamentar num choro alto para se fazer lembrado.

Já era mulher madura, mas a maturidade estava só nos anos que depois dos trinta passam mais rápido. E para Nicole muito mais.

Sua prioridade naquele momento era arrumar os peitos numa selfie e postar com aquele sorriso apático. Queria aproveitar que estavam lindamente fartos de leite. Foi quando sentiu o líquido escorrer do bico do seio, lembrou-se de Dudu, que cansado de chorar adormeceu.

O marido, de fala mansa e pouca conversa. Tinha a reprovação nos olhos, mas viver de aparência e ostentar a vida perfeita também lhe era muito atraente.

Desde sempre, a humanidade importa-se muito com opiniões alheias e acreditam que mostrar felicidade a trará para perto de si. Mostrar o que não se tem, ser o que não se é. Talvez só atraía a inveja que não se quer!

Nicole estava cansada. Das noites mal dormidas às brigas diárias com o marido. Levava a vida fazendo comparações, fundando-se em felicidades virtuais e afundando-se consequentemente em desgostos. Impossível convergir a realidade com o conto de fadas do mundo virtual.
Enquanto seu momento materno e lindo de amamentar, iam-se embora como se fosse um peso em sua vida.

Uma amiga sorrindo e no fundo a Catedral de Notre-Dame em Paris. Outra que nem era tão amiga mas estava na sua lista de contatos, ostentava o biquini novo nas praias do Nordeste. Tinha ainda o pessoal da época da faculdade reunidos num encontro na pizzaria que tanto queria ir. Observava depressiva todas aquelas imagens em sua timeline, como num filme "Eu sou feliz e você?".
Enquanto estava lá, cheirando a leite!

Segurou Dudu no colo, abriu a blusa e deixou os seios à mostra. Talvez admirava-se ver seu bebê mexer a cabecinha á procura do peito. Talvez gostasse da sensação de sentí-lo lhe sugando. Talvez amasse tudo aquilo muito mais do que queria.
Porque num mundo que regras são impostas por uma sociedade fútil e de valores inversos, não se enxerga a felicidade nas coisas mais simples...

A foto um tanto sensual no perfil tinha a frase " É que a felicidade invade nossas vidas todos os dias!"

A vida perfeita. A perfeita vida hipócrita.
Depois da foto, nada mudou. O vazio ainda continuou no peito oprimido e no sorriso pequeno.
Enquanto em seu colo ninhava o que tanto procurava... No carro importado, na casa com piscina, na jóia, naquele sapato da última coleção, no peito siliconado, no egocentrismo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

My Boyfriend forever


                                                      Foto Pinterest

A tatuagem nada discreta, tomava conta das costas. Reconheci a espada tribal. Entre tantas pessoas naquela praia, nem o sol ofuscou sua imagem aos meus olhos.
Talvez a carência tenha feito eu exagerar na admiração. Mas naquele momento, não consegui tirar os olhos dele. De cabelos bem curtos e negros, entre um mergulho e outro e percebi seus olhos procurando os meus.

                                                                       ***
Fazia tempo que estava numa busca incansável por uma espécime quase em extinção, em aplicativos de namoro, bares e botecos. Mas só encontrei "aqueles" que nos veem como um pedaço de carne em exposição ou uma boneca para enfeite e sem nenhum tipo de sentimento. Procurei nos amigos dos amigos, frequentei  missas, cultos e até sessões espíritas. Nada.
Porque a vida é assim, as coisas acontecem quando estamos distraídos. Quando menos esperamos, quando deixamos o tempo passar sem pressa, quando não estamos obcecados.
                    
                                                                       ***

Era um feriado e nem tinha pensado em ir para praia até minha amiga praticamente me arrastar para as areias do Leblon. Seria interessante dar uma cor mais saudável ao meu semblante, que nos últimos tempos andava um tanto melancólico.
Soquei algumas roupas na mala, as melhores e menores e voamos.

Já na praia nos concentramos próximo ao um grupo interessante de rapazes, na verdade fui atraída pela tatuagem tribal. Esparramada na areia, cuidando para que a posição favorecesse meu abdômen e que os seios ficassem lindamente pouco protegidos pelo tecido do biquíni. 
Mulher é assim, quer sensualizar até quando é indiferente. Não era o meu caso. Deixei bem claro meu interesse, tanto que não demorou muito para a tatuagem vir ao meu encontro. 

Eu não me fiz de arrogante e falei com o coração. 
Sem jogos e máscaras. 
Porque entendi quase tardiamente que se mostrar exatamente como se é, sem disfarces. Mais cedo afastamos os que não nos serve, mas também aproxima os que nos cabe perfeitamente.

Estava eu com a parte do meu corpo mais exuberante para cima, tinha desamarrado a parte superior do biquíni para evitar a marquinha nas costas, quando percebi que uma sombra crescia por cima de mim. Virei-me protegendo os seios com a canga e  avistei o mais belo sorriso. Retribui com um sorriso ainda maior. Ele pediu licença e ajudou-me com o biquíni. Senti suas mãos encostando em minha pele enquanto tentava amarrar. Arrepios bem significativos tomaram conta do meu corpo, sua respiração estava tão próxima! Lembrei-me naquele momento, que nunca sentira algo parecido. E o medo tornou-se meu companheiro.

                                                                   ***
Medo, na medida certa é um sentimento necessário. Nos ajuda a ser cautelosos, nos mantém alertas. O que não podemos é transformá-lo em pavor. Quando entramos nessa vibração, paralisamos e comprometemos nossa autoestima.
                                                                  
                                                                   ***

Incrível como nos reconhecemos pela alma, conversamos como velhos amigos. Gostos semelhantes, amigos em comum e até frequentávamos os mesmos lugares. Sim, Vim de Curitiba para encontrar o amor da minha vida no Rio de Janeiro! Um Curitibano como eu, meu vizinho. E as coincidências não pararam.

Não citarei nomes, porque essa história  pode ser de qualquer um. Acontece a toda hora, todos os dias. 

A conversa prolongou-se atá à noite, no luau à beira-mar. Seus amigos fizeram a fogueira, as pessoas iam se juntando e aquele clima romântico foi eternizando-se em minha memória. Minha amiga estava feliz, vi no jeito que dançava. 
Tive a certeza, mesmo em poucas horas, que ele era o dono do meu coração quando aproximou-se com seu violão. Talvez tenha lido meus pensamentos e com muita habilidade, já nas primeiras notas reconheci a minha música preferida. A voz rouca, fez a imaginação correr longe. Cantou toda a melodia com os olhos fixados aos meus.

*Quando Deus te desenhou
 Ele tava namorando
 Quando Deus te desenhou
 Ele tava namorando
 Na beira do mar
 Na beira do mar, do amor
 Na beira do mar
 Na beira do mar, do amor...

A noite virou madrugada e acabamos amanhecendo nus em algum lugar da praia. Privados do álcool, porque queríamos lembrar de cada detalhe. 

                                                                  ***
Não pensei se era cedo demais para a nossa primeira vez, eu queria que fosse especial! E resolvi simplificar as coisas. Só saberia suas intenções com o "depois".
O tempo nos diz muita coisa. Porque só conhecemos a nós mesmos e muitas vezes agimos por impulso, pelo momento ou por interesses.

                                                                ***

Nos afastamos de todos a certa altura da madrugada, ainda podíamos escutar a música, "Me namora", sugestivo na ocasião. Segurou em minhas mãos e me arrastou entre as pedras. A lua cheia exibia-se linda, tinha seus mistérios e eu também.




                                                       Foto Pinterest

Deixei a canga cair tão discretamente que ele só percebeu quando meus seios apontavam soberbos em sua direção. Não me despi totalmente. Mas totalmente me despi de qualquer preconceito, da hipocrisia e do estereótipo da sociedade. 
Me mostrei inteira e verdadeira. E diferente de outros, ele me enxergou. 
Tão excitado quanto admirado, sentou-me na pedra e roçou os lábios em meu sexo. Olhei para o céu repleto de estrelas e vi o reflexo da lua nos alcançando. 
A penetração só se fez quando nossos corpos cansados da luta corporal caíram exaustos na areia.
Foi tão intenso, que nem percebi quando um grupo de rapazolas cheirados a pó aproximaram-se. E um deles comentou: "Tem uma baleia encalhada na areia"
Mas nada podia apagar o êxtase do momento.

Nunca fui uma modelo de revista e nem manequim de passarela.
Só resolvi me dar uma chance, aceitar-me, arriscar!
E por isso "ele" me enxergou.

Confessou-me: Seu sorriso é lindo, mas sua confiança deixou-me curioso. Caí na sua armadilha e nem pretendo fugir!







* Trecho da música Desenho de Deus de Armandinho, muito tocada em luau. Perfeita para os enamorados.

* Me namora - música de Edu Ribeiro






segunda-feira, 21 de março de 2016

Entre viver e morrer



Eu não tinha dúvidas quando depositei minhas mãos nas suas. Mas elas apareceram quando seu jeito de me dizer com os olhos pareciam um Adeus.
Recoloquei  minhas mãos em seu peito. Precisava sentir um coração, que não o meu.
Porque ele pulsava muito mais quando eu te olhava.

Eu tentei lhe prender pelo ventre e lhe mostrar que das minhas loucuras, existiam verdades.
Mas o que ainda não sabia, minhas ilusões eram totalmente egocêntricas.

Não percebi quando se soltou da minha cintura. E me perdi à sua procura. Procurei em cada olhar feminino mais próximo, em cada boteco de esquina. Em toda música que falava de amor e ódio. Na caixa postal vazia. Vasculhei as redes sociais, fui em todos os jogos de futebol e passei noites olhando as estrelas.

Nada foi em vão, nem tempo perdido. Porque tirei dos olhos o véu que cobria erros e comecei a enxergar mais que meu próprio umbigo.

Te descobri em outras camas e outros (a)braços.
Sussurrei para que não escutasse, agora meu ventre exagerado perdera o sentido.
Seu jeito distante não fez questão de escutar a verdade que eu tinha.

O som de seu caminhar não tinha eco, porque não teria volta. Não atendeu à minha voz alterada dizendo seu nome. Simplesmente se foi.
Silencioso e sem remorsos.

E situações angustiantes tendem pessoas a cometer loucuras.
Minha loucura era gostar de quem não sabia amar.
As horas que se seguiram sequei minhas lágrimas pensando no fim.

Foram dias intermináveis e cruéis. Mas não era a primeira vez e nem seria a última.
Com um detalhe a mais dessa vez, não estava "só".

E isso mudou toda o fim ou começo de minha história. Temos a autoridade de construir ou destruir vidas.

E pela primeira vez senti que eu tinha o livre-arbítrio.

Optei pela vida, por construir uma história diferente. Se meu coração chorava por quem só me ensinou a indiferença. Eu tinha o poder em transformar esse momento crítico em bem-aventurança.

Meses depois, quando a razão de estar ali eu segurava em meus braços, alimentando com meu próprio corpo. Compreendi o verdadeiro amor!

Lágrimas lavaram meu rosto. Aliviada que meu entendimento apareceu à tempo. Sufoquei qualquer ódio, vingança ou tristeza e deixei livre meu coração para receber quem mais importava. Sangue do meu sangue! Meu filho.

Você aproximou-se rasteiro como um réptil, porque lhe enxergava traiçoeiro.
No passado, me entregaria em seus braços mesmo que trouxesse outros perfumes contigo.

Mas, o tempo muda, mesmo curto, transforma!

Você não estava ali pela criança e muito menos por mim. Estava pela falta de opção e pela soberba ridícula marcada no sorriso malicioso.

Logo transformei seu semblante em aversão absoluta. Provei de uma vingança que nem esperei, mas ela se fez.

Quando parou a porta que um dia bateu para nunca mais voltar, presenciou a cena mais linda que seu coração tosco reagiu. Vi em seus olhos, enamorados como nunca antes.

Eu lindamente com os seios nus na cadeira de balanço, cabelos presos e mechas soltas pelo rosto. Nosso filho em meu peito, sugando todo o meu amor.

Atirou-se em meus pés soluçando de remorso. Mas nada eu podia fazer, meu amor agora era só de um.

                                                                     ***

"Eu te dei meu mundo e você o fez solitário. Doei-lhe da minha luz e me mostrou a escuridão.
Em toda noite sem fechar os olhos, apaguei da memória um dia que pensei te amar.
Morri enquanto queria uma vida ao seu lado. Mas sua ausência trouxe-me a autoestima perdida, o amor-próprio humilhado e a felicidade nunca sentida".





terça-feira, 17 de novembro de 2015

Confessionário da Luxúria


Missa de domingo. Tão cedo que para mim era madrugada. Meus pais arrastavam-me até a igreja. Sentavam na primeira fileira enquanto eu me escondia na última. Ficava imaginando se tinham ideia do que eu me tornei e pretendiam me acalmar com preces repetidas e entediantes.
Quando achei que ia ouvir o padre conduzir palavras num sermão, vejo encostado perto da porta um amigo que há tempo não via. Um friozinho excitante arrepiou-me.
Fixei o olhar nele, até me avistar.
Sentou-se ao meu lado e sussurrou  não tão baixo como deveria.
- Minha maluquinha preferida, tá mais gostosa que dá última vez e de vestido ainda, facilita as coisas.

Ele tinha essa liberdade, de falar assim...

Só lhe dirigi o olhar, para que entendesse onde estaríamos dois minutos depois. Saí e logo em seguida foi atrás de mim.
No confessionário, um cantinho apertado, protegido por cortinas, sujeitávamos ser vistos. Mas era o que nos fazia arriscar.
Ele sentou na cadeira que o padre usava  para escutar as lamentações de um povo com devoção fingida, pensava eu. Muitas, daquela gente, levava consigo a prepotência e para aliviar um pouco a culpa, ajoelhavam-se frente a cruz e confessavam os mesmos pecados durante décadas. Quando saíam dali, estavam prontas para cometer outras transgressões.

Ainda sentado baixou as calças com certa dificuldade. Fiquei a admirar o nu perfeito de meu amigo. Levantei o vestido e empurrei a calcinha para o lado. Sentei já saracoteando em seu membro ereto, minha boca grudou na sua para sufocar nossos gemidos. O sermão do padre no altar falava sobre o sexo antes do casamento.
E a mistura de prazer e medo, nos fez chegar ao ápice rapidamente. Levantei, tirei a calcinha molhadinha e enfiei no bolso dele. Ajeitei meu vestido, cabelos e os peitos que tinham pulado para fora do decote. Beijei-o mais uma vez e voltei para meu banco. Como se nada tivesse acontecido.

Algumas mulheres que estavam prestando atenção na vida alheia, no momento na minha, olharam-me perplexas. Imaginando se realmente tive o atrevimento. Os cabelos desalinhados não lhes davam a certeza.
Mas eu tinha uma certeza, de boas samaritanas com pensamentos tão imundos como os meus, posando de um padrão mascarado, sabia eu, que a hipocrisia se escondia por trás de toda aquela podridão.
E eu, que sou toda defeitos e cheia de erros, mas sou eu. De todos os pecados, o único que eu contrario ás leis divinas é a luxúria.

Esbocei um sorriso despretensioso quando ele saiu do confessionário, ajeitando a camiseta por dentro da calça. E para minha surpresa, logo atrás uma daquelas que carregam o rosário no peito e quem mais censurou-me no comprimento do vestido e no tamanho do decote.

Confessou-me ele mais tarde.
Logo que saí do confessionário, a fanática em fazer sinal da cruz apareceu ameaçando nos entregar ao padre. Meus pais me dariam uma surra ali mesmo.
Calou a boca dela baixando as calças mais uma vez. E tudo não durou mais que cinco minutos. Propositadamente, enquanto a moça já satisfeita e muito nervosa tentava se vestir, entregou-lhe a calcinha que estava no seu bolso, a minha.
E a calçola perdeu-se no confessionário. Nunca soubemos se foi o padre que encontrou.
E agora a carola vai nas missas com um sorriso mais sagaz. E quando me observa entrando pela igreja, é com admiração.


*Dela (Espanhola). Uma personagem real, que me inspirou nesse conto. Cada vez que me conta uma das suas experiências, mas a comparo com o livro "A CASA DOS BUDAS DITOSOS" de João Ubaldo Ribeiro. E diferente da senhora de 68 anos que narra sua vida e nunca saberemos se ela existiu, a Espanhola só não existe, como vive intensamente!

ORIGINALMENTE PUBLICADO 27/09/2013

Meu cardigã transparente



Ainda podia sentir o gosto do seu sêmen quando, um tanto desajeitado e eu desavisada descobri que toda nossa história não teria fim. E se resumia em mentiras.
Cobri a nudez do meu corpo com um cardigã transparente, como pensei que era nossa relação. Discreta, mas transparente.
Teu egocentrismo e a maneira de ver a vida me fez olhar para outros olhos, sentir outras mãos.

Mas sua percepção tardia só lhe advertiu quando as noites já eram fatídicas.
Repeti meu discurso incansavelmente. E descobri que estava certa, mesmo querendo estar errada.
Me despi de sua insensibilidade. E me deitei com tantos corpos mais interessantes.

O copo de cerveja ainda tinha a marca de um batom qualquer. Quando entre beijos e alguns tapas, senti seu membro crescer dentro de mim.
Nas paredes do motel de quinta eu resumi nossa história.
Num lugar decadente como seu caráter, entendi enfim, o que me prendia a você.

Eu estava só. Mesmo que ainda deitássemos no mesmo travesseiro e dividíssemos a conta do bar. Estava só, mesmo quando viajávamos para outra Cidade e eu preparava aquele jantar, estava só.
Estava só em toda nossa história. No tempo dedicado e na energia dissipada. E era justamente o que me trazia de volta ao seu lado. Sentir sua falta, mesmo estando tão próximo.

Mas talvez  não soubesse, que meu lado negro estava por vir. Nem sei quando começou toda minha loucura. De sentimentos desencontrados, troquei o amor pelo ódio.
Odiar era tão mais divertido. Porque eu podia lhe arrancar suspiros e talvez lágrimas, sem compaixão. Mas o ódio, é o amor adoecido.

Lembra-se daquela noite? Preparei o jantar regado de muita bebida alcoólica para seus amigos. Jogatina, um de seus preferidos vícios. A cada dose de Whisky percebia minha coragem tornar-se maior. Todos os olhares era para meu quadril saracoteando num vai e vem da sala para cozinha. Retirei os pratos para vir com a sobremesa. Meu decote generoso, estava o deixando tenso e constrangido. Mas depois de doses de Whisky, cerveja e Vodka. Tudo é permitido.

Jogados pelos estofados da sala. Ainda bebericavam, eu a mais sóbria. Voltei com meu cardigã transparente, por baixo a lingerie minúscula e sua preferida. Não importou-se com minha ousadia naquele momento.

Seduzida pelo ritmo do Blues e Jazz, diminui a luz do ambiente e iniciei de modo tímido uma dança. Enquanto ajeitavam-se, fascinados pela minha silhueta movendo-se com toda volúpia.

Despir-se da mágoa, das mentiras, da alma... Era meu desejo real. Sem hipocrisia, ficar nua para seus amigos me fez sentir o que era vingança. Amarga no final.

Nem totalmente nua e totalmente sua. Cobri meu corpo com o tecido transparente, revelei todo o sentido que nos faziam homem e mulher. Senti o desejo de ostentar meu exibicionismo. E no ritmo da luxúria, fiz minha dança, que poderia ser do acasalamento em outra conjuntura.

Enquanto descia a lingerie, os sussurros exagerados enobreciam meu ego.
Mistura perigosa com o álcool.

Esforço-me para suscitar a memória, não lembro de detalhes e nem de como tudo aconteceu. Mas sei, desejava que sentisse o mesmo ódio que eu.

Você, impotente diante do que estava presenciando. Mas desse momento lembro-me, de olhar assustado. Visualizou entre os vultos amontoados pelo meu corpo, meu semblante de sofrimento. E ali mesmo, o início do meu arrependimento.

Dia seguinte. Se eu queria de alguma maneira um motivo para livrar-me de um mal, você. Consegui, com um mal muito maior.


"Corte tudo que lhe faça mal, antes que crie raízes. Para que não fiquem vestígios." Patrícia Garbuio




ORIGINALMENTE PUBLICADO DIA 29/07/2014

Também sei falar de AMOR

* Entre elogios, disfarçado, me censuram por meus contos quase sempre ter um fim cruel. Eu sei.
Agora, vou falar de AMOR.

Amores que me dizem, me impressionam e me sufocam, porque tê-los?
Se me entrego, me desdobro e no fim, me perco.

E não há verdades, nem coragem.
Levianos com minha sensatez
Ignoram a minha estupidez.

Dentro do carro, te esperei lendo um livro. Quando me dei de presente, a dúvida era entre Lolita e Madame Bovary. Mas optei pelo Os 120 Dias De Sodoma. Minha predileção pelo Bizarro e polêmicas nasceu comigo. Quando criança reunia os amigos para contar histórias de terror. Eram invenções, mas acreditavam nas minuciosidades de detalhes perversos. Mais tarde, percebi que a escolha, para o momento da minha vida, não foi a melhor. Vomitei muitas vezes, nessa leitura bizarra. Talvez Marquês de Sade, tivesse chocado, por mostrar o lado podre dos humanos. Da forma mais repugnante.
Mas não deixei de devorar romances como Madame Bovary e Lolita. Até minha maneira de amar, é diferente.

Tamborilei os dedos finos no volante, quase meio-dia e senti uma gota de suor escorrer entre meus seios. Mais fartos nos últimos dias. Não imaginava qual seria sua reação.

Apesar dos olhos de menino, não entregavam sua real idade. E o jeito de beijar o canto da minha boca foi o que me fez olhá-lo mais demoradamente. É que a vida me ensinou ser mais complexa. E que nos mínimos detalhes, segredos se ocultam. E escapar do controle, só na hora de amar.

Parei o carro longe da cidade. Queria uma conversa distante da loucura do dia a dia. Mais perto do canto dos pássaros, eu tinha a paz que precisava naquele momento. Controlei a emoção da voz. A voz que tinha novidades para lhe dizer. A voz que você gostava de escutar no fim da noite, lhe seduzindo na sua canção predileta. "How Deep Is Your Love" - Bee GeesSempre lhe disse que tu és um velho num corpo de menino. E você ri pensativo. Porque sabe que é verdade! Quem aos 15 anos já mora sozinho, paga as contas e sustenta um Pastor Alemão?

Cinco anos mais tarde nos conheceríamos no bar que uma vez por semana eu soltava a voz nessa canção.
Fala de um amor profundo, de um mundo de insensatos e somos eu e você. É o que importa.

Sou sistemática e você perfeccionista. E isso nos faz um casal de diferença grande de idade mais esquisito, mas o mais perfeito. E mais cinco anos se passaram. Agora nos seus 25 anos pondera cada palavra antes de falar e me enche de surpresas. Mentalidade de um homem de verdade, desses quase em extinção.

Eu iniciei nossa conversa cantando Rita Lee. 
" Amor é um livro
   Sexo é esporte
   Sexo é escolha 
   Amor é sorte"

Você não me deixou terminar, tão pouco contar a novidade. Me roubou um beijo e com a mão sobre meu ventre me surpreendeu mais uma vez. Já sabia. 
Observador. Atento. Uma vida a dois, nos leva a uma transparência quase absoluta. Descobrimos caprichos e a rotina do outro. Nos entregamos e por vezes, irritamos. Ou nem tanto. 

Esperou pacientemente que eu confirmasse sua suspeita. Seus olhos e o sorriso largo encharcado pelas lágrimas, surpreendeu-me com a alegria exagerada. Me senti amada.
E ali mesmo nos possuímos. Com menos agressividade que o de costume.




Eu sei, para você o final feliz começa tradicionalmente com a família perfeita.
E eu jamais me encaixaria na sublimidade. Não tenho limites para me entregar, desde que minha liberdade não esteja a perigo. E ela estava.

Não podemos ter tudo que desejamos, lhe dei a bênção de ser pai. Mais que isso, sufocaria minha necessidade de ser eu. Estava na hora da mudança. Não o despejei da minha vida, nem do meu coração. Só do convívio debaixo do mesmo teto. Pela primeira vez não me compreendeu. Seu amor não era incondicional. E talvez eu seja mais egoísta que afetuosa. Nada impressionável e muito impressionante.

"Entre as águas que me deixaram nua e quase sua. Mergulhei sem saber, qual seria meu fim! E mesmo assim... Eu era sua, de um outro jeito, mas eu era só sua..."



Ausência de 7 meses. Carência tolerante e relevante. De turbilhões de pensamentos. Idéias delirantes. Raiva incompreendida. 

Você chegou, quando nossa criança já respirava o mesmo ar que nós. Notei o semblante   marcado por sulcos recentes. A ruga mais profunda entregava-me que enfim, eu tinha seu entendimento.

Beijou minhas mãos e num abraço tão apertado, como meu coração. Pediu perdão.
Corremos riscos todos os dias. E eu precisei aventurar-me para ter a certeza.
Certeza do "para sempre" e não do "momento".

Meu amor por você, mesmo cruel, te revelou que sua certeza não era a mesma que a minha. 
Encostou os lábios na nossa menina demoradamente, agora único vínculo entre nós.

E no instante seguinte, já sorrindo, continuou seu caminho de mãos dadas e não com as minhas...

ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 24 DE ABRIL DE 2014

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

SEM ROSTO


Na mesma cama muitas se deitam.
Deleitam-se.
Hoje sei que nenhuma tem a minha estupidez.
Nem meus olhos silenciosos
E loucos os que não tem minha lucidez.
E nesse jeito perigoso de aceitar
Vou me desconcertando para não tentar.
Homens daqueles que derrubam minha sensatez,
Donos de um jogo que não sei jogar.
Conhecedora da beleza que atrai e trai,
Presa a um vício de manipulação
Arrastamo-me fingindo a mesma adoração.
E na procura meus olhos perdem-se...
E silenciam-se novamente...
Mas jamais desistem.

"Aquele" que acompanhe minhas loucuras, saboreie meu paladar, me embebeda com seu líquido, me torture com suas juras. Valorize meu exagero e não economize suas mãos. Aceite palavras sem nexo e acredite na minha fidelidade. Que aproveite minha bondade e valorize minha paciência.

Meus olhos ainda o procuram...

- Publicado originalmente dia 23 de janeiro de 2012 - 9:12 da manhã