segunda-feira, 3 de maio de 2010

NUDEZ DE UMA OCASIÃO


Enquanto me despia em frente ao espelho, pensamentos perturbados invocavam minha mente. Praticamente uma regra.
Lembranças do passado me faziam esse mal.

Deixei a lingerie deslizar pelas pernas. Acariciei meus seios, ainda firmes. Quarenta anos.
Pensei que essa idade chegaria quando eu já estivesse sendo avó. Que eu teria mais rugas e cabelos brancos. Mas nem os filhos, esses foram esquecidos a cada relacionamento equivocado.
Estava eu, nua, observando os estragos que os anos tinham feito ao meu corpo. Talvez poucos, quase nenhum. Porque não ter o frescor da juventude com a experiência da idade da loba? Seria mais fácil chegar a menopausa.
Ao pensar na vida monótona, do trabalho para casa, de casa ao trabalho, do trabalho ao um raro cinema e não tantas vezes como gostaria a um motel com o namorado. Me torturo em arrependimentos.
De nunca ter tentado, de não ter feito aquela loucura, deixado de amar para não sofrer, perdido a oportunidade e a palavra que nunca foi dita. Deixei simplesmente uma vida passar, sem me expor a nenhum tipo de riscos. E agora tudo se resumia a essa falta de multiplicidade.

O tempo é cruel muitas vezes, outras é a melhor opção.

Observei demoradamente meus olhos pelo reflexo da janela. Vontade de viver, viver sem medo de viver. Finalmente entendi. Que se dane o que dizem ou o que pensam. Estava na hora de trocar de pele.

A campainha soou tão fortemente como as batidas do meu órgão musculoso,  que quase esquecia mas existia dentro de mim.
Era ele. Disse que ia e foi. Tão menino, sorriso maroto, mas atitude de homem.
Meu aluno do ensino médio que desde o primeiro dia de aula me atenta com sua malícia
tímida, quase imperceptível. Mesmo tantas vezes repetente, estudar era só um pretexto, achava eu.
Deixei umas gotas de perfume cair entre os seios, retoquei o batom coral e ajeitei uma última vez os cachos negros que caíam sobre meu colo. Coloquei meu melhor salto, porque valorizavam ainda mais meu andar imperativo e fui atender a porta completamente nua...

Talvez já fosse tarde demais para aproveitar as oportunidades e que as loucuras rotuladas vencem o prazo. E quando pela primeira vez me entrego a um perigo iminente, ele vem escoltado do arrependimento.

Meu aluno, de sorriso maroto, com livros nas mãos, estava do outro lado da porta acompanhado de seu pai...

4 comentários:

  1. se algum móvel quebrar ou espelho espatifar, vira um poema

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  2. Gosto de mulheres de atitude. Até mesmo quando o perfume é apenas uma lufada de whisky nos lábios. Te beijo

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  3. Confesso que não esperava esse final. Gostei!
    Beijo!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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