segunda-feira, 19 de abril de 2010

Infância sem voz


“Venha aqui, senta no meu colo”

Eu torcia o nariz e ficava inquieta, mas o medo forçava-me a sentar. Naquela época a inocência demorava-se mais tempo na infância.

Tinha 9 anos de idade. Não compreendia bem a situação, mas sabia que era errado.

O Diretor da escola, um homem grande para todos os lados gostava de observar as garotinhas no recreio. E na primeira oportunidade puxava uma de nós para seu colo.

Sem preocupar-se com funcionários, certamente fingiam-se cegos. Sem receio que alguma de nós contássemos para os pais, ele sabia ser repugnante. Nos dias de hoje as coisas seriam bem diferentes.



De pernas abertas, sentava uma garotinha em cada coxa. Geralmente nos bolinava no intervalo.
Meu suor febril começava cada vez que me chamava para sentar em seu colo.
Com aquela mão grossa e áspera, hoje imagino o quanto suja também. Disfarçadamente, mas não o suficiente para que ninguém percebesse, a colocava por dentro do uniforme.
Primeiro acariciava meus peitinhos, eu nem consigo explicar o desconforto e repúdio que sentia.
Em seguida, aqueles dedos imundos descia até a calcinha. Acariciava os poucos pelos pubianos até chegar ao clitóris.
Arrepios descontrolados me davam ânsia. Porque? Pensava eu em minha simplicidade e ignorância de uma criança há mais de 30 anos atrás.

No fim da aula, eu e uma coleguinha de classe que ia embora comigo éramos as últimas na escola. Ficávamos correndo pelo pátio e evitando a aproximação do diretor até meu pai chegar.
E nunca contamos para ninguém.

Um trauma esquecido e não cicatrizado.
Um crime impune e que sempre existiu. A diferença do passado que hoje a criança tem muito mais voz!