quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Na sua cama nunca mais


É uma estória, sem controvérsias.
Mas há muito mais do que controvérsias. É uma história.

Maria sentou-se no fundo do ônibus. De nome forte, carregava a mesma simplicidade de alma e força na vontade que tinha de viver.
Não há loucura no prazer, dizia. A loucura é não sentir prazeres.

Não se importava com os olhares por onde andava, mas se importaria com a ausência deles. Homens, velhos, moços, adolescentes, mulheres e até crianças.

De vestido curto, impacientemente cruzou as pernas até chegar no ponto desejado. Feliz daquele que estava à sua frente.

Ela sabia, seria a última conversa. Sempre foram mais que amigos, ele não gostava de dar rótulos. Isso deixava para as outras. 
Não entendia porque as pessoas se entrelaçavam em sua vida, de uma maneira nada discreta. Retornavam de qualquer passado.

Com a elegância que só Maria tinha, dirigiu-se ao encontro daquele que um dia pensou amar. Pediu que fosse num lugar discreto. Sabia que nem o corpo cheio de curvas faria diferença, mesmo assim foram onde tudo começou.

A conversa não foi difícil, tudo que foi dito já sabia.

Sabotou-se, forçando o fim. Coragem lhe faltava para negar àquele que lhe acompanhava na sua intensidade. Que compreendia sua extravagância e admirava toda volúpia.

Maria lhe foi fiel até onde conseguiu. Exclusividade é para os que tem medo do perigo, de arriscar, de experimentar. Nem um nem outro tinham esse medo. Nisso eram iguais, mesmo ela acreditando num Deus e ele no Diabo. Ninguém era de ninguém.

E como ele sempre dizia: "Você é um vinho delicioso que dá a maior ressaca"
Ela o comparava a um vício ilícito. Depois que a euforia passava, tudo era menos encantador.

Já não queria mais dividí-lo. Com a amiga, com a vizinha, a colega de trabalho e todas as outras que passavam pela sua cama. Fingia não perceber, cinicamente fingia.

Sentados lado a lado, os olhos de Maria procuravam os dele. Não queriam mais, mesmo sabendo, que ainda se desejavam.Tudo que viveram foi intenso, só eles sabiam.

Se despediram com um abraço apertado. Ela tinha um sorriso no canto dos lábios, não era de felicidade. Ele continuou abraçado e os olhos petrificados. Maria o afastou do seu corpo, seu sangue manchou o vestido. O colocou cuidadosamente deitado ao chão e a faca ao lado. Lhe beijou os lábios. Ele ainda respirava quando atravessou a porta e a fechou em seguida.