terça-feira, 17 de novembro de 2015

Meu cardigã transparente



Ainda podia sentir o gosto do seu sêmen quando, um tanto desajeitado e eu desavisada descobri que toda nossa história não teria fim. E se resumia em mentiras.
Cobri a nudez do meu corpo com um cardigã transparente, como pensei que era nossa relação. Discreta, mas transparente.
Teu egocentrismo e a maneira de ver a vida me fez olhar para outros olhos, sentir outras mãos.

Mas sua percepção tardia só lhe advertiu quando as noites já eram fatídicas.
Repeti meu discurso incansavelmente. E descobri que estava certa, mesmo querendo estar errada.
Me despi de sua insensibilidade. E me deitei com tantos corpos mais interessantes.

O copo de cerveja ainda tinha a marca de um batom qualquer. Quando entre beijos e alguns tapas, senti seu membro crescer dentro de mim.
Nas paredes do motel de quinta eu resumi nossa história.
Num lugar decadente como seu caráter, entendi enfim, o que me prendia a você.

Eu estava só. Mesmo que ainda deitássemos no mesmo travesseiro e dividíssemos a conta do bar. Estava só, mesmo quando viajávamos para outra Cidade e eu preparava aquele jantar, estava só.
Estava só em toda nossa história. No tempo dedicado e na energia dissipada. E era justamente o que me trazia de volta ao seu lado. Sentir sua falta, mesmo estando tão próximo.

Mas talvez  não soubesse, que meu lado negro estava por vir. Nem sei quando começou toda minha loucura. De sentimentos desencontrados, troquei o amor pelo ódio.
Odiar era tão mais divertido. Porque eu podia lhe arrancar suspiros e talvez lágrimas, sem compaixão. Mas o ódio, é o amor adoecido.

Lembra-se daquela noite? Preparei o jantar regado de muita bebida alcoólica para seus amigos. Jogatina, um de seus preferidos vícios. A cada dose de Whisky percebia minha coragem tornar-se maior. Todos os olhares era para meu quadril saracoteando num vai e vem da sala para cozinha. Retirei os pratos para vir com a sobremesa. Meu decote generoso, estava o deixando tenso e constrangido. Mas depois de doses de Whisky, cerveja e Vodka. Tudo é permitido.

Jogados pelos estofados da sala. Ainda bebericavam, eu a mais sóbria. Voltei com meu cardigã transparente, por baixo a lingerie minúscula e sua preferida. Não importou-se com minha ousadia naquele momento.

Seduzida pelo ritmo do Blues e Jazz, diminui a luz do ambiente e iniciei de modo tímido uma dança. Enquanto ajeitavam-se, fascinados pela minha silhueta movendo-se com toda volúpia.

Despir-se da mágoa, das mentiras, da alma... Era meu desejo real. Sem hipocrisia, ficar nua para seus amigos me fez sentir o que era vingança. Amarga no final.

Nem totalmente nua e totalmente sua. Cobri meu corpo com o tecido transparente, revelei todo o sentido que nos faziam homem e mulher. Senti o desejo de ostentar meu exibicionismo. E no ritmo da luxúria, fiz minha dança, que poderia ser do acasalamento em outra conjuntura.

Enquanto descia a lingerie, os sussurros exagerados enobreciam meu ego.
Mistura perigosa com o álcool.

Esforço-me para suscitar a memória, não lembro de detalhes e nem de como tudo aconteceu. Mas sei, desejava que sentisse o mesmo ódio que eu.

Você, impotente diante do que estava presenciando. Mas desse momento lembro-me, de olhar assustado. Visualizou entre os vultos amontoados pelo meu corpo, meu semblante de sofrimento. E ali mesmo, o início do meu arrependimento.

Dia seguinte. Se eu queria de alguma maneira um motivo para livrar-me de um mal, você. Consegui, com um mal muito maior.


"Corte tudo que lhe faça mal, antes que crie raízes. Para que não fiquem vestígios." Patrícia Garbuio




ORIGINALMENTE PUBLICADO DIA 29/07/2014

3 comentários:

  1. Lindo conto!!!
    faz a imaginação ir longe, e querer naquele instante ser mais um vulto deles !!!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada! Essa é a intenção, mexer com a imaginação!

      Excluir
  2. uma historia intrigante linda ,parecendo muito verdadeira,!!!!!você já passou por algum momento parecido?

    ResponderExcluir