quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eu " Bem-te-vi"


O som que me agradava os ouvidos, era de um filhote de Bem-te-vi. Na procura pela sua mãezinha meu cão caçador o abocanhou. Só soltou com meu grito e o último suspiro foi nas minhas mãos.
Essa espécie, também conhecida pelos índios como triste-vida. Pensei, como a minha.

Não me queixava, mas a monotonia dos dias me fazia lembrar que eu era uma viúva de 35 anos. Rica. Absolutamente só. Praticamos muito, mas não deu tempo de produzir os herdeiros.

Entre namoro, noivado e casamento foram quase uma década. Nem sei porque demoramos a nos casar. Talvez as viagens longas que Marcelo fazia a trabalho, talvez o comodismo, talvez porque não o amava tanto quanto ele pensava. Morreu de repente, coração.

Foi a 2 anos atrás que comecei a lamentar o tempo fútil e cheio de vícios. Mudei hábitos. Costumava passar horas fora de casa quando meu esposo viajava. Os empregados não tinham voz e nem ouvido.

O culpado que me mantinha entretida por longos períodos do dia, me fez amante apaixonada. Aventurava-me cada vez mais. Até colocá-lo para dentro da casa. No meu quarto. Paixão que cega, consome com a sensatez. E o perigo se delonga.

Na última noite, ele veio até meu quarto mais cedo. Acompanhei o olhar reprovador da faxineira. E o semblante atemorizado da cozinheira. Marcelo chegaria no dia seguinte de viagem. Mas era a Adrenalina com a Ocitocina, os dois hormônios juntos que me fariam chegar ao clímax.
O joguei na cama, logo que chegamos ao quarto. A intensidade do momento me deixou desatenta. Mesmo com a porta entreaberta me despi de qualquer pudor.
Como animais, a selvageria iniciou quando me pus de pé na cama e fixei meu salto em seu peito. Facilitei para que sua visão do meu sexo por baixo fosse o melhor ângulo.

Com certo esforço encostou os dedos e numa massagem intensa me fez chegar ao primeiro orgasmo.
Ele a quis em seus lábios.
E ainda nessa postura, quase o sufocando com meu gosto, não percebi que seu gemido era mais um lamento de dor.

Marcelo adiantou seu retorno, queria me fazer surpresa. Quando aproximou-se do quarto. Viu a porta entreaberta e toda nossa movimentação violenta. Atordoado afastou-se rapidamente e correu para a cozinha. Reconheceu a piedade nos olhos da empregada.
Humilhado e no momento da infâmia. Não tinha como contar até dez para evitar um desfecho funesto. Ninguém lhe impediu. Passou a mão naquele facão afiado que corta garrafa como se fosse manteiga e voltou certo do que faria.

De costas para a porta, cobrindo o rosto do meu amante... Enquanto seu membro ereto, despido e desprotegido, num segundo depois encharcava-se no próprio sangue.
Quando virei-me, o espetáculo era cruel. Pressenti uma palidez mórbida alcançar meu rosto.

Marcelo estava com o olhar turvo. Em uma mão segurava um buquê de orquídeas e na outra o membro mutilado. Começou a sentir falta de ar e o Infarto foi fulminante.

Entorpecida, chocada. Não impedi de meu cão levar o pedaço de carne que ele encontrou na mão do meu marido, enquanto desabava no chão.