quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A tal da felicidade virtual


FOTO:IVETTEIVENS.COM

Antes mesmo do amanhecer, quando o sol ainda nem apareceu no horizonte Nicole já se conectava ao seu celular, ritual diário. E isso significava a todas as redes sociais possíveis.
Vício atual.

O bebê parou de resmungar para encher o pulmãozinho e lamentar num choro alto para se fazer lembrado.

Já era mulher madura, mas a maturidade estava só nos anos que depois dos trinta passam mais rápido. E para Nicole muito mais.

Sua prioridade naquele momento era arrumar os peitos numa selfie e postar com aquele sorriso apático. Queria aproveitar que estavam lindamente fartos de leite. Foi quando sentiu o líquido escorrer do bico do seio, lembrou-se de Dudu, que cansado de chorar adormeceu.

O marido, de fala mansa e pouca conversa. Tinha a reprovação nos olhos, mas viver de aparência e ostentar a vida perfeita também lhe era muito atraente.

Desde sempre, a humanidade importa-se muito com opiniões alheias e acreditam que mostrar felicidade a trará para perto de si. Mostrar o que não se tem, ser o que não se é. Talvez só atraía a inveja que não se quer!

Nicole estava cansada. Das noites mal dormidas às brigas diárias com o marido. Levava a vida fazendo comparações, fundando-se em felicidades virtuais e afundando-se consequentemente em desgostos. Impossível convergir a realidade com o conto de fadas do mundo virtual.
Enquanto seu momento materno e lindo de amamentar, iam-se embora como se fosse um peso em sua vida.

Uma amiga sorrindo e no fundo a Catedral de Notre-Dame em Paris. Outra que nem era tão amiga mas estava na sua lista de contatos, ostentava o biquini novo nas praias do Nordeste. Tinha ainda o pessoal da época da faculdade reunidos num encontro na pizzaria que tanto queria ir. Observava depressiva todas aquelas imagens em sua timeline, como num filme "Eu sou feliz e você?".
Enquanto estava lá, cheirando a leite!

Segurou Dudu no colo, abriu a blusa e deixou os seios à mostra. Talvez admirava-se ver seu bebê mexer a cabecinha á procura do peito. Talvez gostasse da sensação de sentí-lo lhe sugando. Talvez amasse tudo aquilo muito mais do que queria.
Porque num mundo que regras são impostas por uma sociedade fútil e de valores inversos, não se enxerga a felicidade nas coisas mais simples...

A foto um tanto sensual no perfil tinha a frase " É que a felicidade invade nossas vidas todos os dias!"

A vida perfeita. A perfeita vida hipócrita.
Depois da foto, nada mudou. O vazio ainda continuou no peito oprimido e no sorriso pequeno.
Enquanto em seu colo ninhava o que tanto procurava... No carro importado, na casa com piscina, na jóia, naquele sapato da última coleção, no peito siliconado, no egocentrismo.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

My Boyfriend forever


                                                      Foto Pinterest

A tatuagem nada discreta, tomava conta das costas. Reconheci a espada tribal. Entre tantas pessoas naquela praia, nem o sol ofuscou sua imagem aos meus olhos.
Talvez a carência tenha feito eu exagerar na admiração. Mas naquele momento, não consegui tirar os olhos dele. De cabelos bem curtos e negros, entre um mergulho e outro e percebi seus olhos procurando os meus.

                                                                       ***
Fazia tempo que estava numa busca incansável por uma espécime quase em extinção, em aplicativos de namoro, bares e botecos. Mas só encontrei "aqueles" que nos veem como um pedaço de carne em exposição ou uma boneca para enfeite e sem nenhum tipo de sentimento. Procurei nos amigos dos amigos, frequentei  missas, cultos e até sessões espíritas. Nada.
Porque a vida é assim, as coisas acontecem quando estamos distraídos. Quando menos esperamos, quando deixamos o tempo passar sem pressa, quando não estamos obcecados.
                    
                                                                       ***

Era um feriado e nem tinha pensado em ir para praia até minha amiga praticamente me arrastar para as areias do Leblon. Seria interessante dar uma cor mais saudável ao meu semblante, que nos últimos tempos andava um tanto melancólico.
Soquei algumas roupas na mala, as melhores e menores e voamos.

Já na praia nos concentramos próximo ao um grupo interessante de rapazes, na verdade fui atraída pela tatuagem tribal. Esparramada na areia, cuidando para que a posição favorecesse meu abdômen e que os seios ficassem lindamente pouco protegidos pelo tecido do biquíni. 
Mulher é assim, quer sensualizar até quando é indiferente. Não era o meu caso. Deixei bem claro meu interesse, tanto que não demorou muito para a tatuagem vir ao meu encontro. 

Eu não me fiz de arrogante e falei com o coração. 
Sem jogos e máscaras. 
Porque entendi quase tardiamente que se mostrar exatamente como se é, sem disfarces. Mais cedo afastamos os que não nos serve, mas também aproxima os que nos cabe perfeitamente.

Estava eu com a parte do meu corpo mais exuberante para cima, tinha desamarrado a parte superior do biquíni para evitar a marquinha nas costas, quando percebi que uma sombra crescia por cima de mim. Virei-me protegendo os seios com a canga e  avistei o mais belo sorriso. Retribui com um sorriso ainda maior. Ele pediu licença e ajudou-me com o biquíni. Senti suas mãos encostando em minha pele enquanto tentava amarrar. Arrepios bem significativos tomaram conta do meu corpo, sua respiração estava tão próxima! Lembrei-me naquele momento, que nunca sentira algo parecido. E o medo tornou-se meu companheiro.

                                                                   ***
Medo, na medida certa é um sentimento necessário. Nos ajuda a ser cautelosos, nos mantém alertas. O que não podemos é transformá-lo em pavor. Quando entramos nessa vibração, paralisamos e comprometemos nossa autoestima.
                                                                  
                                                                   ***

Incrível como nos reconhecemos pela alma, conversamos como velhos amigos. Gostos semelhantes, amigos em comum e até frequentávamos os mesmos lugares. Sim, Vim de Curitiba para encontrar o amor da minha vida no Rio de Janeiro! Um Curitibano como eu, meu vizinho. E as coincidências não pararam.

Não citarei nomes, porque essa história  pode ser de qualquer um. Acontece a toda hora, todos os dias. 

A conversa prolongou-se atá à noite, no luau à beira-mar. Seus amigos fizeram a fogueira, as pessoas iam se juntando e aquele clima romântico foi eternizando-se em minha memória. Minha amiga estava feliz, vi no jeito que dançava. 
Tive a certeza, mesmo em poucas horas, que ele era o dono do meu coração quando aproximou-se com seu violão. Talvez tenha lido meus pensamentos e com muita habilidade, já nas primeiras notas reconheci a minha música preferida. A voz rouca, fez a imaginação correr longe. Cantou toda a melodia com os olhos fixados aos meus.

*Quando Deus te desenhou
 Ele tava namorando
 Quando Deus te desenhou
 Ele tava namorando
 Na beira do mar
 Na beira do mar, do amor
 Na beira do mar
 Na beira do mar, do amor...

A noite virou madrugada e acabamos amanhecendo nus em algum lugar da praia. Privados do álcool, porque queríamos lembrar de cada detalhe. 

                                                                  ***
Não pensei se era cedo demais para a nossa primeira vez, eu queria que fosse especial! E resolvi simplificar as coisas. Só saberia suas intenções com o "depois".
O tempo nos diz muita coisa. Porque só conhecemos a nós mesmos e muitas vezes agimos por impulso, pelo momento ou por interesses.

                                                                ***

Nos afastamos de todos a certa altura da madrugada, ainda podíamos escutar a música, "Me namora", sugestivo na ocasião. Segurou em minhas mãos e me arrastou entre as pedras. A lua cheia exibia-se linda, tinha seus mistérios e eu também.




                                                       Foto Pinterest

Deixei a canga cair tão discretamente que ele só percebeu quando meus seios apontavam soberbos em sua direção. Não me despi totalmente. Mas totalmente me despi de qualquer preconceito, da hipocrisia e do estereótipo da sociedade. 
Me mostrei inteira e verdadeira. E diferente de outros, ele me enxergou. 
Tão excitado quanto admirado, sentou-me na pedra e roçou os lábios em meu sexo. Olhei para o céu repleto de estrelas e vi o reflexo da lua nos alcançando. 
A penetração só se fez quando nossos corpos cansados da luta corporal caíram exaustos na areia.
Foi tão intenso, que nem percebi quando um grupo de rapazolas cheirados a pó aproximaram-se. E um deles comentou: "Tem uma baleia encalhada na areia"
Mas nada podia apagar o êxtase do momento.

Nunca fui uma modelo de revista e nem manequim de passarela.
Só resolvi me dar uma chance, aceitar-me, arriscar!
E por isso "ele" me enxergou.

Confessou-me: Seu sorriso é lindo, mas sua confiança deixou-me curioso. Caí na sua armadilha e nem pretendo fugir!







* Trecho da música Desenho de Deus de Armandinho, muito tocada em luau. Perfeita para os enamorados.

* Me namora - música de Edu Ribeiro






terça-feira, 17 de novembro de 2015

Também sei falar de AMOR

* Entre elogios, disfarçado, me censuram por meus contos quase sempre ter um fim cruel. Eu sei.
Agora, vou falar de AMOR.

Amores que me dizem, me impressionam e me sufocam, porque tê-los?
Se me entrego, me desdobro e no fim, me perco.

E não há verdades, nem coragem.
Levianos com minha sensatez
Ignoram a minha estupidez.

Dentro do carro, te esperei lendo um livro. Quando me dei de presente, a dúvida era entre Lolita e Madame Bovary. Mas optei pelo Os 120 Dias De Sodoma. Minha predileção pelo Bizarro e polêmicas nasceu comigo. Quando criança reunia os amigos para contar histórias de terror. Eram invenções, mas acreditavam nas minuciosidades de detalhes perversos. Mais tarde, percebi que a escolha, para o momento da minha vida, não foi a melhor. Vomitei muitas vezes, nessa leitura bizarra. Talvez Marquês de Sade, tivesse chocado, por mostrar o lado podre dos humanos. Da forma mais repugnante.
Mas não deixei de devorar romances como Madame Bovary e Lolita. Até minha maneira de amar, é diferente.

Tamborilei os dedos finos no volante, quase meio-dia e senti uma gota de suor escorrer entre meus seios. Mais fartos nos últimos dias. Não imaginava qual seria sua reação.

Apesar dos olhos de menino, não entregavam sua real idade. E o jeito de beijar o canto da minha boca foi o que me fez olhá-lo mais demoradamente. É que a vida me ensinou ser mais complexa. E que nos mínimos detalhes, segredos se ocultam. E escapar do controle, só na hora de amar.

Parei o carro longe da cidade. Queria uma conversa distante da loucura do dia a dia. Mais perto do canto dos pássaros, eu tinha a paz que precisava naquele momento. Controlei a emoção da voz. A voz que tinha novidades para lhe dizer. A voz que você gostava de escutar no fim da noite, lhe seduzindo na sua canção predileta. "How Deep Is Your Love" - Bee GeesSempre lhe disse que tu és um velho num corpo de menino. E você ri pensativo. Porque sabe que é verdade! Quem aos 15 anos já mora sozinho, paga as contas e sustenta um Pastor Alemão?

Cinco anos mais tarde nos conheceríamos no bar que uma vez por semana eu soltava a voz nessa canção.
Fala de um amor profundo, de um mundo de insensatos e somos eu e você. É o que importa.

Sou sistemática e você perfeccionista. E isso nos faz um casal de diferença grande de idade mais esquisito, mas o mais perfeito. E mais cinco anos se passaram. Agora nos seus 25 anos pondera cada palavra antes de falar e me enche de surpresas. Mentalidade de um homem de verdade, desses quase em extinção.

Eu iniciei nossa conversa cantando Rita Lee. 
" Amor é um livro
   Sexo é esporte
   Sexo é escolha 
   Amor é sorte"

Você não me deixou terminar, tão pouco contar a novidade. Me roubou um beijo e com a mão sobre meu ventre me surpreendeu mais uma vez. Já sabia. 
Observador. Atento. Uma vida a dois, nos leva a uma transparência quase absoluta. Descobrimos caprichos e a rotina do outro. Nos entregamos e por vezes, irritamos. Ou nem tanto. 

Esperou pacientemente que eu confirmasse sua suspeita. Seus olhos e o sorriso largo encharcado pelas lágrimas, surpreendeu-me com a alegria exagerada. Me senti amada.
E ali mesmo nos possuímos. Com menos agressividade que o de costume.




Eu sei, para você o final feliz começa tradicionalmente com a família perfeita.
E eu jamais me encaixaria na sublimidade. Não tenho limites para me entregar, desde que minha liberdade não esteja a perigo. E ela estava.

Não podemos ter tudo que desejamos, lhe dei a bênção de ser pai. Mais que isso, sufocaria minha necessidade de ser eu. Estava na hora da mudança. Não o despejei da minha vida, nem do meu coração. Só do convívio debaixo do mesmo teto. Pela primeira vez não me compreendeu. Seu amor não era incondicional. E talvez eu seja mais egoísta que afetuosa. Nada impressionável e muito impressionante.

"Entre as águas que me deixaram nua e quase sua. Mergulhei sem saber, qual seria meu fim! E mesmo assim... Eu era sua, de um outro jeito, mas eu era só sua..."



Ausência de 7 meses. Carência tolerante e relevante. De turbilhões de pensamentos. Idéias delirantes. Raiva incompreendida. 

Você chegou, quando nossa criança já respirava o mesmo ar que nós. Notei o semblante   marcado por sulcos recentes. A ruga mais profunda entregava-me que enfim, eu tinha seu entendimento.

Beijou minhas mãos e num abraço tão apertado, como meu coração. Pediu perdão.
Corremos riscos todos os dias. E eu precisei aventurar-me para ter a certeza.
Certeza do "para sempre" e não do "momento".

Meu amor por você, mesmo cruel, te revelou que sua certeza não era a mesma que a minha. 
Encostou os lábios na nossa menina demoradamente, agora único vínculo entre nós.

E no instante seguinte, já sorrindo, continuou seu caminho de mãos dadas e não com as minhas...

ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 24 DE ABRIL DE 2014

quinta-feira, 5 de março de 2015

DESTRUÍDA PELA LUXÚRIA


"Finjo, de batom nem sempre do mesmo tom, que está tudo bem, que sei andar de salto. Não caio e nem tropeço. Mas espero que até ao fim do dia, eu tenha pelo menos, um abraço.
Porque quando a madrugada surge, vem junto com o silêncio do meu corpo. E quando todos pensam que minha vida é farta de orgasmos.
Observo minha solidão pela janela. A lua tão cheia, espreitá-la sozinha não a torna linda como de fato é".

Palavras tão bem encaixadas foram escritas pela mulher do apartamento 203, como era conhecida.
Nunca a encontrei pelos corredores do antigo prédio, mas a escutava chegando às 3 horas da madrugada nos fins de semana. Minha insônia permitia que eu acompanhasse seus ruídos. As vezes eram intensos e outros pareciam lamentos. Mas o último que escutei, foi diferente. Veio alto, cheio de dor e logo em seguida abafado.
Não estranhei, já que era comum seus escândalos.

No dia seguinte percebi uma movimentação diferente pelo prédio, subi até o andar de cima e juntamente com outros vizinhos curiosos me deparei com a imagem chocante. Enfim, conheci a vizinha que tanto me deixou curioso. A porta estava aberta, fomos entrando e no seu quarto estava ela esquartejada na cama. O lençol manchado com seu sangue, nas paredes vestígios de quem tentou livrar-se. Não demorei o olhar sobre seu corpo, mas foi o suficiente para ver que tinha cabelos negros e longos. Nua e de salto.
Lembrei do grito de sofrimento. Senti uma vertigem e me retirei. Mas antes de sair completamente daquele ambiente de horror, minha atenção foi atraída para uma agenda jogada a um canto da sala. Juntei discretamente e levei comigo. Nem sei o porquê, num impulso pela curiosidade talvez. As páginas amassadas, tive a sensação que muitas vezes foram lidas e relidas, manchadas por suas lágrimas. Comecei a ler até a última palavra escrita, imaginando com a riqueza de detalhes.

Alguns trechos de suas narrações chamou-me mais a atenção.

"Meu dia nunca teve rotina, aromas de cafés da manhã sempre me trouxeram na lembrança minha adolescência. Cedo perdi a dedicação materna.
Logo percebi que minha melhor companhia seria a solidão. Em idade madura, meu corpo ainda não revela o peso dos anos bem vividos. Meus olhos não tem só a beleza da vivacidade, mas também uma maturidade mordaz.
Mulheres assim... Seduzem facilmente homens de todas as idades".

"Murilo, pouca idade, mas o suficiente para saber como segurar um quadril de mulher. Quando me joga de bruços por cima da sua mesa na copa. Os pais do outro lado do mundo e a mansão é só nossa. Nunca tive paciência para ensinar sacanagens, mas Murilo sabe exatamente do que eu gosto. E consegue me deixar exausta".

"E os de 30 anos, ainda solteiros, são um tanto perdidos. Ao mesmo tempo que querem uma relação que possa lhes dar filhos. Seguram a tal da "liberdade" afastando qualquer pretendente a incumbência de esposa. Beto, tem a vaidade cravada nos olhos azuis. Nosso sexo perfeitamente agressivo, criativo, devora-me de todo jeito e trejeitos.
Uma das minhas melhores performance. Ele chega fácil ao ápice. Deitado ao chão espera-me, eu só de vestido. De baixo enxerga meu sexo aproximando-se cada vez mais de seus lábios".

"Carlos, fatalmente meu preferido. Singular, maduro, com pouco mais do dobro da idade de Murilo, ainda assim, tem músculos tão bem definidos quanto. Sem a mesma vitalidade no sexo, mas sou compensada na sua habilidade com as mãos e a atenção do antes e depois. Só com ele eu tenho a segurança, o sossego de poder deitar no colo de um homem por horas, no silêncio, sem urgência. E ainda assim perceber sentimentos muito além da troca de energias orgásticas".

"Cada um tem um pouco do que eu desejo. Completam-me separadamente. Assim, sem obrigação efetiva, ainda tenho minha preciosa liberdade. Mas, há sempre um mas... Nos dias cinzas, quando a chuva parece molhar toda a alma. Eu tenho que saciar-me com minha própria companhia".

"Há perigos na luxúria, que nossa mente pouco percebe. Instiga fantasmas onde não existem ou sim. Cria fantasias, despertando monstros dentro de nós. 
Sei que ele já sabe dos outros, dissimula sua raiva no sexo muito mais agressivo. Sua mudança no tom de voz me fez mais atenta. Sempre respira mais fundo, mas o olhar não engana. Sua vontade é de me chicotear até a morte, quando nos divertimos com meus brinquedinhos de sadomasoquismo".

Nesse último trecho escrito no dia de sua morte, percebi que as entrelinhas diziam quem era o assassino. E baseando-se em suas descrições anteriores descobri.

"Hoje, meu homem mais perfumado e barba feita virá. Tenho uma angústia aqui no peito, pressentimento ruim quem sabe? Prefiro pensar que é só a saudade." 

Mandei anonimamente o diário à polícia. Talvez tenha ajudado, talvez não. Dependeria da perspicácia. Nunca soube. O apartamento continua fechado, nenhum parente apareceu. Há madrugadas que acordo em sobressalto, com a impressão de seus gritos ecoando pelo prédio.






quinta-feira, 25 de julho de 2013

DOS MEUS AMORES EU ME BASTO


Dias de dissabores, eu me protegia entre meus lençóis tão sozinha, dos meus amores.

Nem ele, nem outros, nem tantos poderiam saber o que eu trazia no peito e gritava entre aquelas paredes. Eu tinha tantos e ao mesmo tempo, nenhum. Por que na hora mais escura, no dia mais calmo, nenhum calor humano me aquecia.

Sentar na cama depois do sexo, para pensar o que era certo. No espelho ainda sujo da noite anterior, refletia minha imagem de cadela no cio. Mas eu não passava de uma mulher incomum, que todas queriam ser.
                                                                   ***
Nem o olhar mais reprovador... Se meu coração é só razão. Nem os gritos, nem lágrimas, me diziam o que fazer.
Só eu sei qual é a minha verdade. Por que tantas decepções me mostraram, que não se confia nem na sombra. Que desapego é o antídoto.
                                                                   ***

Meus olhos sempre procuraram os deles. Todos subestimavam minha astúcia, mas eu não fingia arrogância. Eu era arrogante. Alguns podem chamar de vingança, mas eu sei, preferi alimentar só o monstro dentro de mim e o resto... O resto deixei morrer.
                                                             
                                                                   ***
Eles confiavam no meu olhar meigo, na timidez quase imperceptível. Acreditavam nas histórias verdadeiras cheias de dissimulações, para ocultar o que só eu precisava saber. Eu lhes dava o chão, a certeza, o atrevimento de que tudo era para sempre. Mas quando se acredita na metamorfose da vida, nada é para SEMPRE e o NUNCA não existe.

O moreno de sorriso fácil, era o mais egocêntrico. Porque egoísmo faz parte do rol de qualidades/defeitos de um homem. Todos, sem exceção.

Na pele tatuada, um nome com sobrenome. De tom mais escuro dos meus amores, suado do sexo intenso. Deixou sua saliva onde passou pelo meu corpo. Lambuzando-me de sua cobiça.
Queria fazer amor, mas a agressividade com que chegou no mais fundo da minha intimidade, deixou vestígio. O sangue sobre o lençol denunciou seu desejo em "me ter".
Quase como um estupro.
Mas era o que eu gostava, do agressivo, do bruto. Muitas vezes eu torturava, até chegar a um estupro... Mental.

Na última vez deitou-me sobre a areia, a ideia de parecer romântico dizia-me pouco sobre ele. Fim de tarde, em Abril aquela praia era pouco movimentada. Como tudo que eu fazia era premeditado, meu vestido suavemente transparente cobria o corpo nu.
Antes que sentisse suas mãos pelo meu corpo, levantei-me e corri para as pedras. Atrás de mim, sentiu meu perfume pela brisa.
Entre as pedras me possuiu.
Ondas mais fortes cobriram nossos corpos. Meu vestido revelou ainda mais minhas curvas que ele tanto gostava.

E o que me fazia diferente, é ir onde ninguém ia. Abraçados, observando o mar, depois de liberar endorfinas, eu lhe contei o que jamais imaginou ouvir da boca que tanto lhe dava prazer.
Perigosamente mostrei que "único" na minha vida, era só meu passado. E eu falava no plural.
Chocado pela confissão, perdeu cor, os olhos tentaram disfarçar, mas não conseguiram segurar a tristeza.
Levantou-se inseguro. Homem custa a acreditar que nossa crueldade possa ser maior que a deles.
Tentei lhe dar um abraço hipócrita.
Afastou-se e aproveitei quando me deu as costas para empurrá-lo entre as pedras.
Com um pouco de medo espiei a cena. Ele tinha sangue na testa,
                                                                  ***
Acordei num sobressalto e respiração angustiante, mas aliviada quando percebi que era só um pesadelo. Ainda estávamos ali deitados sobre a areia. Desisti de confiá-lo meu segredo. Por mais que eu tivesse perversidade, eu não queria assassiná-los. Só matá-los um a um dentro de mim.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

PELOS OLHOS DE UM VOYEUR

Desci a escadaria, o vestido plissado não era branco, mesmo assim ele observou minhas coxas no descuido propositadamente. Tinha o mesmo descuido nos cabelos emoldurados pelo vento.
As madeixas caindo pelo colo o excitaria tanto quanto minhas pernas.
Eu não gostava, mas seu olhar era como uma poesia eroticamente desenhada.
Eu sabia, seus olhos demoravam horas em mim. E eu aproveitava do voyeurismo para provocar.

Ele era só um motorista, me cercando de cuidados cada vez que me levava para algum lugar.
A vida me foi caridosa em todos os sentidos e a genética herdada do pai, me tornava a garota preferida do colégio.

Quando os dias mais ensolarados chegavam, a provocação não vinha só da saia curta, mas os primeiros botões da camisa estavam sempre desabotoados até chegar ao portão do colégio.
E o espelho retrovisor interno estrategicamente colocado, no banco de trás eu preferia estar.
Descia arrumando a calcinha, não passava despercebido para "olhos verdes" como eu o chamava.

Os anos foram passando, a maioridade chegou e como toda moça de família tradicional casei. O sexo ainda mais tradicionalista me tornou apática. Mas o dinheiro era minha consolação.
Nunca esqueci de "olhos verdes", trocamos poucas palavras em alguns anos, mas minha intimidade com ele era muito maior do que com meu marido. Que a princípio, me tocava, conhecia meu sexo, mas não meus desejos.

"Olhos verdes" nunca me tocaria, observava e eu permitia. Esse era o limite para nossa intimidade.

Nossas experiências sustentaram um casamento de aparências.
Na hora do sexo convencional, lembrar de detalhes e situações faziam-me ser o que sempre fui.
Perversa.

Recentemente completado meus 18 anos e muito mais atrevida. Nos compreendíamos na troca de olhares pelo espelho do carro.
Sentei atrás, onde pudesse ver-me mais facilmente. "Olhos verdes" estava me levando em uma festa de amigos. Descruzei as pernas, levantando um pouco mais o vestido de tom brilhoso. Arregalou os olhos quando ergui o quadril colocando a mão por baixo do vestido.
Sem pressa deslizei as mãos até o joelho trazendo a calcinha. Percebi sua respiração já um tanto ofegante e a nuca transpirando.
Tirei uma perna da calcinha e a ergui no banco. Não resistiu e desceu o espelho até a imagem que lhe fez ter o primeiro orgasmo da noite.
Fechei os olhos e me acariciei. Imaginando seus dedos dentro de mim. Arrancou no sinal verde sem a menor pressa e não importando-se com as buzinas. Os vidros embaçados pela nossa respiração. O cheiro de sexo, mesmo sem sexo.

Exagerei quando levantei-me e lhe dei as costas, de joelho e abraçada ao porta-malas, levantei o vestido até ele poder visualizar o que mais os homens veneram.

Gemidos abafados rendeu-se ao segundo orgasmo dele.

Eu queria mais. Provoquei, com atitudes sem palavras. E da mesma maneira ele me respondeu.

Quando o toquei, já quase lhe beijando, sua fisionomia alterada saiu do carro e abriu a porta do passageiro me pedindo com os olhos compreensão.
Retirei-me deixando vestígios.