terça-feira, 17 de novembro de 2015

Também sei falar de AMOR

* Entre elogios, disfarçado, me censuram por meus contos quase sempre ter um fim cruel. Eu sei.
Agora, vou falar de AMOR.

Amores que me dizem, me impressionam e me sufocam, porque tê-los?
Se me entrego, me desdobro e no fim, me perco.

E não há verdades, nem coragem.
Levianos com minha sensatez
Ignoram a minha estupidez.

Dentro do carro, te esperei lendo um livro. Quando me dei de presente, a dúvida era entre Lolita e Madame Bovary. Mas optei pelo Os 120 Dias De Sodoma. Minha predileção pelo Bizarro e polêmicas nasceu comigo. Quando criança reunia os amigos para contar histórias de terror. Eram invenções, mas acreditavam nas minuciosidades de detalhes perversos. Mais tarde, percebi que a escolha, para o momento da minha vida, não foi a melhor. Vomitei muitas vezes, nessa leitura bizarra. Talvez Marquês de Sade, tivesse chocado, por mostrar o lado podre dos humanos. Da forma mais repugnante.
Mas não deixei de devorar romances como Madame Bovary e Lolita. Até minha maneira de amar, é diferente.

Tamborilei os dedos finos no volante, quase meio-dia e senti uma gota de suor escorrer entre meus seios. Mais fartos nos últimos dias. Não imaginava qual seria sua reação.

Apesar dos olhos de menino, não entregavam sua real idade. E o jeito de beijar o canto da minha boca foi o que me fez olhá-lo mais demoradamente. É que a vida me ensinou ser mais complexa. E que nos mínimos detalhes, segredos se ocultam. E escapar do controle, só na hora de amar.

Parei o carro longe da cidade. Queria uma conversa distante da loucura do dia a dia. Mais perto do canto dos pássaros, eu tinha a paz que precisava naquele momento. Controlei a emoção da voz. A voz que tinha novidades para lhe dizer. A voz que você gostava de escutar no fim da noite, lhe seduzindo na sua canção predileta. "How Deep Is Your Love" - Bee GeesSempre lhe disse que tu és um velho num corpo de menino. E você ri pensativo. Porque sabe que é verdade! Quem aos 15 anos já mora sozinho, paga as contas e sustenta um Pastor Alemão?

Cinco anos mais tarde nos conheceríamos no bar que uma vez por semana eu soltava a voz nessa canção.
Fala de um amor profundo, de um mundo de insensatos e somos eu e você. É o que importa.

Sou sistemática e você perfeccionista. E isso nos faz um casal de diferença grande de idade mais esquisito, mas o mais perfeito. E mais cinco anos se passaram. Agora nos seus 25 anos pondera cada palavra antes de falar e me enche de surpresas. Mentalidade de um homem de verdade, desses quase em extinção.

Eu iniciei nossa conversa cantando Rita Lee. 
" Amor é um livro
   Sexo é esporte
   Sexo é escolha 
   Amor é sorte"

Você não me deixou terminar, tão pouco contar a novidade. Me roubou um beijo e com a mão sobre meu ventre me surpreendeu mais uma vez. Já sabia. 
Observador. Atento. Uma vida a dois, nos leva a uma transparência quase absoluta. Descobrimos caprichos e a rotina do outro. Nos entregamos e por vezes, irritamos. Ou nem tanto. 

Esperou pacientemente que eu confirmasse sua suspeita. Seus olhos e o sorriso largo encharcado pelas lágrimas, surpreendeu-me com a alegria exagerada. Me senti amada.
E ali mesmo nos possuímos. Com menos agressividade que o de costume.




Eu sei, para você o final feliz começa tradicionalmente com a família perfeita.
E eu jamais me encaixaria na sublimidade. Não tenho limites para me entregar, desde que minha liberdade não esteja a perigo. E ela estava.

Não podemos ter tudo que desejamos, lhe dei a bênção de ser pai. Mais que isso, sufocaria minha necessidade de ser eu. Estava na hora da mudança. Não o despejei da minha vida, nem do meu coração. Só do convívio debaixo do mesmo teto. Pela primeira vez não me compreendeu. Seu amor não era incondicional. E talvez eu seja mais egoísta que afetuosa. Nada impressionável e muito impressionante.

"Entre as águas que me deixaram nua e quase sua. Mergulhei sem saber, qual seria meu fim! E mesmo assim... Eu era sua, de um outro jeito, mas eu era só sua..."



Ausência de 7 meses. Carência tolerante e relevante. De turbilhões de pensamentos. Idéias delirantes. Raiva incompreendida. 

Você chegou, quando nossa criança já respirava o mesmo ar que nós. Notei o semblante   marcado por sulcos recentes. A ruga mais profunda entregava-me que enfim, eu tinha seu entendimento.

Beijou minhas mãos e num abraço tão apertado, como meu coração. Pediu perdão.
Corremos riscos todos os dias. E eu precisei aventurar-me para ter a certeza.
Certeza do "para sempre" e não do "momento".

Meu amor por você, mesmo cruel, te revelou que sua certeza não era a mesma que a minha. 
Encostou os lábios na nossa menina demoradamente, agora único vínculo entre nós.

E no instante seguinte, já sorrindo, continuou seu caminho de mãos dadas e não com as minhas...

ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 24 DE ABRIL DE 2014

quinta-feira, 5 de março de 2015

DESTRUÍDA PELA LUXÚRIA


"Finjo, de batom nem sempre do mesmo tom, que está tudo bem, que sei andar de salto. Não caio e nem tropeço. Mas espero que até ao fim do dia, eu tenha pelo menos, um abraço.
Porque quando a madrugada surge, vem junto com o silêncio do meu corpo. E quando todos pensam que minha vida é farta de orgasmos.
Observo minha solidão pela janela. A lua tão cheia, espreitá-la sozinha não a torna linda como de fato é".

Palavras tão bem encaixadas foram escritas pela mulher do apartamento 203, como era conhecida.
Nunca a encontrei pelos corredores do antigo prédio, mas a escutava chegando às 3 horas da madrugada nos fins de semana. Minha insônia permitia que eu acompanhasse seus ruídos. As vezes eram intensos e outros pareciam lamentos. Mas o último que escutei, foi diferente. Veio alto, cheio de dor e logo em seguida abafado.
Não estranhei, já que era comum seus escândalos.

No dia seguinte percebi uma movimentação diferente pelo prédio, subi até o andar de cima e juntamente com outros vizinhos curiosos me deparei com a imagem chocante. Enfim, conheci a vizinha que tanto me deixou curioso. A porta estava aberta, fomos entrando e no seu quarto estava ela esquartejada na cama. O lençol manchado com seu sangue, nas paredes vestígios de quem tentou livrar-se. Não demorei o olhar sobre seu corpo, mas foi o suficiente para ver que tinha cabelos negros e longos. Nua e de salto.
Lembrei do grito de sofrimento. Senti uma vertigem e me retirei. Mas antes de sair completamente daquele ambiente de horror, minha atenção foi atraída para uma agenda jogada a um canto da sala. Juntei discretamente e levei comigo. Nem sei o porquê, num impulso pela curiosidade talvez. As páginas amassadas, tive a sensação que muitas vezes foram lidas e relidas, manchadas por suas lágrimas. Comecei a ler até a última palavra escrita, imaginando com a riqueza de detalhes.

Alguns trechos de suas narrações chamou-me mais a atenção.

"Meu dia nunca teve rotina, aromas de cafés da manhã sempre me trouxeram na lembrança minha adolescência. Cedo perdi a dedicação materna.
Logo percebi que minha melhor companhia seria a solidão. Em idade madura, meu corpo ainda não revela o peso dos anos bem vividos. Meus olhos não tem só a beleza da vivacidade, mas também uma maturidade mordaz.
Mulheres assim... Seduzem facilmente homens de todas as idades".

"Murilo, pouca idade, mas o suficiente para saber como segurar um quadril de mulher. Quando me joga de bruços por cima da sua mesa na copa. Os pais do outro lado do mundo e a mansão é só nossa. Nunca tive paciência para ensinar sacanagens, mas Murilo sabe exatamente do que eu gosto. E consegue me deixar exausta".

"E os de 30 anos, ainda solteiros, são um tanto perdidos. Ao mesmo tempo que querem uma relação que possa lhes dar filhos. Seguram a tal da "liberdade" afastando qualquer pretendente a incumbência de esposa. Beto, tem a vaidade cravada nos olhos azuis. Nosso sexo perfeitamente agressivo, criativo, devora-me de todo jeito e trejeitos.
Uma das minhas melhores performance. Ele chega fácil ao ápice. Deitado ao chão espera-me, eu só de vestido. De baixo enxerga meu sexo aproximando-se cada vez mais de seus lábios".

"Carlos, fatalmente meu preferido. Singular, maduro, com pouco mais do dobro da idade de Murilo, ainda assim, tem músculos tão bem definidos quanto. Sem a mesma vitalidade no sexo, mas sou compensada na sua habilidade com as mãos e a atenção do antes e depois. Só com ele eu tenho a segurança, o sossego de poder deitar no colo de um homem por horas, no silêncio, sem urgência. E ainda assim perceber sentimentos muito além da troca de energias orgásticas".

"Cada um tem um pouco do que eu desejo. Completam-me separadamente. Assim, sem obrigação efetiva, ainda tenho minha preciosa liberdade. Mas, há sempre um mas... Nos dias cinzas, quando a chuva parece molhar toda a alma. Eu tenho que saciar-me com minha própria companhia".

"Há perigos na luxúria, que nossa mente pouco percebe. Instiga fantasmas onde não existem ou sim. Cria fantasias, despertando monstros dentro de nós. 
Sei que ele já sabe dos outros, dissimula sua raiva no sexo muito mais agressivo. Sua mudança no tom de voz me fez mais atenta. Sempre respira mais fundo, mas o olhar não engana. Sua vontade é de me chicotear até a morte, quando nos divertimos com meus brinquedinhos de sadomasoquismo".

Nesse último trecho escrito no dia de sua morte, percebi que as entrelinhas diziam quem era o assassino. E baseando-se em suas descrições anteriores descobri.

"Hoje, meu homem mais perfumado e barba feita virá. Tenho uma angústia aqui no peito, pressentimento ruim quem sabe? Prefiro pensar que é só a saudade." 

Mandei anonimamente o diário à polícia. Talvez tenha ajudado, talvez não. Dependeria da perspicácia. Nunca soube. O apartamento continua fechado, nenhum parente apareceu. Há madrugadas que acordo em sobressalto, com a impressão de seus gritos ecoando pelo prédio.